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Bobby
Fischer (1943)
O
mais polêmico e, possivelmente o maior enxadrista de todos
os tempos, Robert James ("Bobby") Fischer, dominou seus
contemporâneos e estabeleceu-se como lenda viva antes mesmo
de abandonar os torneios e matches após conquistar o título
mundial contra Spásski. Antes disso, alcançara o rating
mais alto, 2 870, da FIDE-Elo, baseado em seus resultados totais;
venceu sucessivas eliminatórias de candidatos contra grandes-mestres
de categoria internacional como Taimanov e Larsen por 6 a 0 e, por
causa de um terrível descuido e uma penalidade, deu a Spásski
duas partidas de vantagem na série pelo título mundial
antes de derrotá-lo com alguma facilidade.
Fischer aprendeu a movimentação das peças aos
seis anos de idade, mas sua primeira grande oportunidade como jovem
enxadrista veio quando sua mãe decidiu instalar-se no Brooklyn.
A popularidade do xadrez em Nova York, com os grandes clubes Manhattam
e Marshall e uma infinidade de bares dedicados ao jogo, tem se mostrado
um ambiente estimulante para vários grandes-mestres norte-americanos
em potencial, e Fischer modelou seu jogo com incessantes partidas
relâmpago aliadas ao estudo da literatura referente ao xadrez
soviético. O resultado desse treinamento intensivo e do total
abandono dos estudos escolares para dedicar-se ao xadrez foi uma
conquista única em torneios: Fischer tornou-se campeão
masculino dos Estados Unidos aos catorze anos de idade.
Provavelmente,
naquela época Fischer não sabia quão íngremes
eram os degraus restantes para o título mundial, detido então
pelo envelhecido Botvinnik, quando se qualificou para o Torneio
de Candidatos na primeira tentativa e se tornou, aos quinze anos,
o grande-mestre mais jovem de todos os tempos. A sólida falange
dos soviéticos superou facilmente seu rival menos experiente
em 1959 e 1962 e Fischer requisitou então, com sucesso, que
o sistema fosse modificado, passando de um torneio para uma série
de eliminatórias entre os oito desafiantes finais. Foi com
esse novo sistema que, em 1971, ele passou por todos os seus rivais
e derrotou Spásski no ano seguinte.
O grande público há de lembrar-se de Bobby mais por
suas excentricidades e rixas do que por seu estilo excepcional.
Sua partida contra Reshevsky, em 1961, terminou com um escândalo
e um processo judicial, e ele abandonou o Interzonal de 1967 quando
estava à frente de todos por causa de uma disputa relativa
à tabela do torneio. Só voou para a Islândia,
onde deveria enfrentar Spásski, depois que o patrocinador
britânico dobrou seu cachê de 50000 libras, e não
abandonou o match contra Spásski por interferência
pessoal do secretário das Relações Exteriores
norte-americano Henry Kissinger. Finalmente, Fischer abdicou do
título mundial sem qualquer briga quando a FIDE recusou sua
proposta de declarar vencedor o primeiro que ganhasse dez partidas,
sendo que o empate de 9 a 9 manteria o título nas mãos
do campeão.
As exigências financeiras de Fischer eram incríveis.
Tanto o match projetado contra Karpov quanto a partida de retorno
contra Gligoric em 1979 - que também não deu em nada
- sairiam por um milhão de dólares ou mais. Apesar
das afirmações de que as cotas de Fischer beneficiavam
também os mestres comuns, havia um enorme contraste entre
essas somas e aquelas em jogo nos torneios internacionais costumeiros.
Depois, havia ainda suas implicâncias relacionadas à
luz, ao barulho dos espectadores e outros detalhes associados ao
jogo evidente que Fischer, a essa altura, chegara a um estado onde
o medo da derrota e de jogar em público dominavam seu pensamento.
O que poderia realçar mais sua reputação lendária
do que uma vitória contra Karpov? Talvez circunstâncias
financeiras desfavoráveis forcem-no a jogar novamente, mas
o mais provável é que Fischer permaneça, junto
com Morphy, como o único grande-mestre a abandonar completamente
o xadrez no auge da fama. O que pode o enxadrista comum aprender
com Bobby Fischer? Primeiramente, a vontade de vencer. O instinto
lutador de Fischer fazia-o continuar em busca de oportunidades de
vitória mesmo em posições onde a maioria dos
mestres teria se contentado com o empate. Sua resposta às
ofertas de empate prematuro era "claro que não".
Era fisicamente difícil jogar contra ele; seus olhos fundos
e hipnóticos e seus traços aquilinos fixavam-se apaixonadamente
no tabuleiro, de onde raramente se levantavam para observar outras
partidas. Fischer tem braços e dedos longos que usava para
tomar as peças adversárias, quando as capturava, como
uma ave de rapina. A vontade de vencer permitiu-Ihe chegar à
frente de seus adversários por margens recordes e esperava-se
sempre uma marca de 100 por cento. Apenas Alekhine tinha semelhante
fanatismo mas, ao contrário dele, Fischer sempre se mantinha
em boa saúde quando enxadrista ativo.
Tecnicamente, Fischer conhecia em profundidade as linhas de abertura
agudas que analisava incessantemente antes dos torneios; nas posições
simples, sua estratégia era tão pura e límpida,
para chegar a seu objetivo, quanto a de Capablanca. Empregava seu
conhecimento das aberturas especialmente bem com as brancas, quando
ganhava tipicamente a iniciativa e o controle espacial para então
comprimir o adversário cada vez mais na defesa até
que sua resistência ruísse. Entre 1966 e 1970, encontrava-se
praticamente aposentado, mas quando apareceu no "Match do Século",
em que o time soviético venceu por pouco um selecionado do
resto do mundo, jogou imediatamente uma partida digna de seu estilo
contra Petrossian.
Parte da razão do imenso interesse do público por
Fischer era sua capacidade de produzir suas melhores e mais espetaculares
partidas nas ocasiões mais importantes. Isso ocorreu quando
se encontrou mais uma vez frente a Petrossian, no ano seguinte,
em Buenos Aires, para a eliminatória final na série
pelo título de campeão mundial, de onde sairia o desafiante
de Boris Spásski. Quando Fischer começou ganhando,
a publicidade mundial cresceu, e multidões tomaram o salão
para dar uma espiada nos grandes-mestres. Fischer respondeu com
uma das melhores partidas de sua vida, cujos estágios finais
ilustram o poder de seu final favorito: torre(s) e bispo superando
torre(s) e cavalo no tabuleiro aberto.
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