Boris Spasski (1937)

Spasski , nascido em Leningrado, tornou-se o perdedor mais famoso e popular do xadrez após sua digna derrota na decisão do título mundial contra Bobby Fischer, em Reykjavik, 1972. Ficou conhecido como garoto prodígio no início de sua adolescência e a Federação Soviética de Xadrez concedeu-lhe a rara honra de ser selecionado para um torneio internacional no exterior antes de ter jogado na final do Campeonato Nacional. Isso ocorreu em Bucareste, 1953, e Spasski teve uma estréia histórica derrotando Smyslov. A partida é interessante não só pelas circunstâncias como também pela ilustração de um plano que os enxadristas comuns podem seguir. As brancas usam seus dois peões avançados no centro para dividir a defesa preta e, então, empregam as peças extras disponíveis num ataque ao flanco do rei rumo à vitória.

Em meados da década de 50, muitos esperavam que Spasski se tornasse logo campeão mundial. Mas seu nervosismo o fez perder partidas decisivas nos campeonatos soviéticos de 1958 e 1961. Numa entrevista alguns anos depois, Boris descreveu seus sentimentos durante a crítica partida contra Tal em 1958: "A partida fora adiada e eu estava em boa posição, mas cansara-me demais com as análises e cheguei, na manhã seguinte, com a barba por fazer. Normalmente, antes de jogar uma partida decisiva, gosto de tomar banho, vestir uma boa camisa e um terno e apresentar-me como manda o figurino. Mas, dessa vez, tinha analisado a partida incessantemente e cheguei ao tabuleiro com uma aparência fatigada e desgrenhado. Portei-me, então, como uma mula teimosa. Lembro-me de que Tal ofereceu-me o empate e eu recusei. A partir daí, perdi a força e a concentração. Por minha vez, ofereci o empate e Tal recusou. Quando abandonei, ouvi uma tempestade de aplausos, mas estava tão atordoado que não conseguia entender o que estava acontecendo. Estava certo de que o mundo tinha caído; sabia que havia algo errado. Depois da partida, saí para a rua e chorei como uma criança". A crise pessoal que Spasski atravessou por volta de 1960 - ele rompeu com seu antigo treinador, foi proibido de viajar por um ano por seu mau comportamento nas Olimpíadas Estudantis de Xadrez e divorciou-se de sua primeira mulher - resolveu-se por um tempo quando ele conseguiu um novo técnico, o calmo e frio Bondarevski. Spasski conseguiu vencer as eliminatórias para o título mundial e jogar o match contra Petrossian em 1966, mas perdeu; ainda não estava suficientemente maduro para ser campeão mundial. Em 1969, derrotou Petrossian nas partidas finais da série, e a vitória chave vale como um exemplo do estilo agressivo de Spasski - controle do centro seguido da entrada das peças pelas linhas abertas.

Quando Spasski conquistou o título, os fãs do xadrez saudaram uma admirável nova era. Mas decepcionaram-se completamente: Spasski tratou o título como um fardo e a única vitória memorável de seu reinado foi contra Bobby Fischer, dos EUA, nas Olimpíadas de Xadrez de 1970. Quando Fischer finalmente se qualificou para a final do campeonato de 1972 e, depois de ameaçar não jogar, compareceu para o match, Spasski muitas vezes parecia tomado de uma resignação fatalista. Perdeu o campeonato e também sua posição invejável na sociedade soviética; eliminado das duas séries seguintes pelo título por Karpov e Kortchnoi, radicou-se com sua esposa francesa - a terceira - nas proximidades de Paris, onde depois veio a naturalizar-se.

Parece paradoxal falarmos de um campeão mundial como um talento desperdiçado, mas os dons naturais de Spasski para o xadrez eram tais que ele deveria ter conquistado o título muito antes e deveria tê-lo mantido por um período maior. Há um toque de preguiça e outro de indecisão em sua constituição mental; com a dedicação ao xadrez de, por exemplo, Alekhine ou Tal, Spasski poderia ter sido um dos maiores campeões de todos os tempos.

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