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Ensino

O xadrez ensina a olhar a realidade.

Há mais de 80 anos, pesquisas em educação, psicologia e neurociência mostram o impacto da prática do xadrez sobre concentração, raciocínio lógico, criatividade e autocontrole. Esta página reúne o referencial pedagógico que orienta o trabalho do CEX nas escolas, oficinas e projetos socioeducacionais.

Capacidades desenvolvidas pelo xadrez

Depois de anos pesquisando o desenvolvimento da concentração em crianças e adolescentes, podemos afirmar que o progresso mais acentuado coincide com o começo da prática do xadrez, o qual influi, sem dúvida, na mentalidade deles.
Krogius, La Psicologia en Ajedrez

No mês de agosto de 1988, em Timissoara (Romênia), foi realizado o Seminário Escolar de Xadrez da FIDE, onde Constantino Paizis proferiu uma palestra: "Sobre a Influência do Xadrez na Formação da Personalidade das Crianças em Idade Escolar". A palestra apontou dois problemas básicos que enfrentam o instrutor de xadrez: controlar o espírito de competição dos jovens jogadores e superar a desinformação dos pais quanto aos aspectos educacionais do jogo.

A criança que acaba de aprender as regras e começa a jogar está em uma trilha de delicado equilíbrio. Inicialmente, ela passa por um modo egocêntrico, elaborando planos e combinações que poderiam ser realizadas se seu oponente não fizesse lances. Aos poucos, vai percebendo que o lado oposto procura obstruir a realização de seus planos. Ela começa a temê-lo, mas não muda de atitude — continua a jogar do mesmo modo egocêntrico, simplesmente desejando que o adversário não seja capaz de penetrar em seus planos.

Atinge-se assim um ponto crítico e delicado: o espírito de competição se desenvolve. Como evoluir? Aqui a interferência do professor é necessária para controlar essa força, pois se for deixada sozinha poderá ter consequências perigosas — concentração excessiva em uma atividade limitada, negligenciando a evolução homogênea da personalidade, ou grandes desapontamentos que vão deixar marcas profundas no caráter.

Por isso o professor tem de entrar em ação e motivar o jovem a jogar xadrez por amor, mais do que para vencer a qualquer custo. Deve mostrar aos alunos a riqueza das variantes e linhas de abertura, a criatividade do meio-jogo e a lógica do final. Em poucas palavras: fixar nos aprendizes a beleza do xadrez, ao invés de valorizar a efêmera glória da vitória.

Usando as palavras de Tigran Petrossian, Grande Mestre Internacional e Campeão do Mundo de 1963 a 1969: "Uma tendência notável no xadrez moderno é a predominância do elemento esportivo sobre o criativo. O fato de hoje em dia o resultado ser mais importante que o conteúdo é nossa infelicidade — uma infelicidade que o público indiscriminadamente aplaude."

Lasker, em seu manual, escreveu: "A estrada para esta educação exige bons professores de xadrez que, ao mesmo tempo, sejam ótimos educadores." Palavras de sabedoria de um homem que cuida não apenas de criar um poderoso jogador, mas também um bom cidadão de uma sociedade melhor.

Implicações Pedagógicas

A cada característica do jogo, uma habilidade educacional.

A relação entre a mecânica do xadrez e o que ela ensina na escola — uma síntese que guia o desenho dos projetos do CEX.

  1. 01
    Concentração enquanto imóvel na cadeira.
    Desenvolvimento do autocontrole psicofísico.
  2. 02
    Fornecer um número de movimentos num determinado tempo.
    Avaliação da hierarquia do problema e alocação do tempo disponível.
  3. 03
    Movimentar peças após exaustiva análise dos lances seguintes.
    Desenvolvimento da capacidade de pensamento abrangente e profundo.
  4. 04
    Encontrado um lance, a procura por outro melhor.
    Tenacidade e empenho no progresso contínuo.
  5. 05
    De uma posição inicialmente igual, direcionar para uma conclusão brilhante (combinação).
    Criatividade e imaginação.
  6. 06
    O resultado indica quem tinha o melhor plano.
    Respeito à opinião do interlocutor.
  7. 07
    Entre várias possibilidades, escolher uma única, sem ajuda externa.
    Estímulo à tomada de decisões com autonomia.
  8. 08
    Um movimento deve ser consequência lógica do anterior e deve apresentar o seguinte.
    Exercício do pensamento lógico, autoconsistência e fluidez de raciocínio.
Pesquisa de Charles Partos

Dez habilidades que o xadrez desenvolve.

O Prof. Dr. Antônio Villar Marques de Sá (Universidade de Brasília — UnB), em sua tese de doutorado "O Xadrez e a Educação" (Le Jeu d'Échecs et l'Education), menciona a pesquisa realizada por Charles Partos, professor do Departamento de Instrução Pública do Cantão do Valais (Suíça), na qual afirma que o xadrez desenvolve:

  1. 01a atenção e a concentração;
  2. 02o julgamento e o planejamento;
  3. 03a imaginação e a antecipação;
  4. 04a memória;
  5. 05a vontade de vencer, a paciência e o autocontrole;
  6. 06o espírito de decisão e a coragem;
  7. 07a lógica matemática, o raciocínio analítico e o sintético;
  8. 08a criatividade;
  9. 09a inteligência;
  10. 10a organização metódica do estudo e o interesse pelas línguas estrangeiras.

Fonte: Charles Partos. Étude Systématique des Échecs. Martigny: Edition A-C Suisse, 1978, 190 p.

O imenso mérito do xadrez é responder a uma das questões fundamentais do ensino moderno: dar a possibilidade a cada aluno de progredir segundo seu próprio ritmo, valorizando a motivação pessoal escolar. O ensino enxadrístico pode inverter a relação professor-aluno, colocando em xeque as hierarquias instituídas na sala de aula. Quando introduzido em classes de baixo rendimento, ajuda no desenvolvimento da autoconfiança e aumenta sensivelmente o progresso em outras disciplinas acadêmicas.

O valor do xadrez

A criatividade, a imaginação e a intuição, nas quais baseio meu jogo, são indispensáveis, assim como o caráter firme; o triunfo vem somente na luta.
Garry Kasparov

Em princípio, devemos entender o jogo como uma atividade que obedece ao impulso mais profundo e básico da essência animal. Esta atividade inicia-se em nossas vidas com os mais elementares movimentos, complicando-se até dominar a enorme complexidade do corpo humano.

Os primeiros jogos que a criança faz são os chamados jogos de exercício, utilizando como principal objetivo o seu próprio corpo. Os bebês chupam suas mãos, emitem sons e repetem diversos movimentos sem finalidade utilitária.

A transição dos jogos de exercício para os simbólicos marca o início da percepção de representações exteriores e a reprodução de um esquema sensório-motor fora de seu contexto. Podemos dizer que o jogo simbólico é um jogo de exercício, sendo que o que se exercita é a imaginação.

Ao chegar o período das operações concretas (por volta dos sete anos de idade), a criança, pelas aquisições que fez, pode jogar atendo-se a normas. Surgem então os jogos de regras, e ela terá que abandonar a arbitrariedade que governava seus jogos para adaptar-se a um código comum. Isto ajudará a criança a aceitar o ponto de vista das demais, a limitar sua própria liberdade em favor dos outros, a ceder, a discutir e a compreender.

Quando a criança joga, compromete toda sua personalidade — não o faz para passar o tempo. Podemos dizer, sem dúvida, que o jogo é o "trabalho" da infância, ao qual a criança se dedica com prazer.

Por isso o xadrez merece crédito: porque ensina às crianças o mais importante na solução de um problema, que é saber olhar e entender a realidade que se apresenta.

No xadrez, como as peças não têm valores absolutos, deve-se monitorar tanto as próprias como as do adversário para implementar sua estratégia. Dito de outra forma: ter a percepção da flexibilidade e reversibilidade do pensamento que ordena o jogo.

Em uma época na qual os conhecimentos nos ultrapassam em quantidade e a vida é efêmera, uma das melhores lições que a criança pode obter na escola é como organizar seu pensamento. E acreditamos que esta valiosa lição pode ser obtida mediante o estudo e a prática do xadrez.

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